SÃO PAULO
ANHANGABAÚ - ONTEM E HOJE
Uma das grandes satisfações,
ao manusear uma coleção de cartões-postais,
é poder acompanhar, nesses simples retângulos de
papel, as gigantescas transformações urbanas por
que passam determinadas cidades ou logradouros públicos.
Na minha coleção
de postais, por exemplo, com mais de 80 mil exemplares, estão
representados a maioria dos países, cidades, épocas
e temas. O cartão-postal, que nasceu na Áustria
como uma simples idéia de remessa de mensagens rápidas
e baratas, no ano de 1869, tendo chegado ao Brasil onze anos
depois, em 1880, está sendo cada vez mais objeto de estudos
em universidades, institutos hidtóricos e geográficos,
ilustrações de livros de arte e etc.. Dentro desse
desfoque, um colecionador de postais pode pesquisar e escrever
sobre os mais variados temas. Nesta edição, por
exemplo, o assunto é o Vale do Anhangabaú, na capital
paulista.
Quem passa por ele, atualmente com seus túneis
de trânsito rápido, pode lembrar-se quando muito
que, até há alguns anos, suas pistas de rolamento
tinham, como ponto de referência, apenas a passagem subterrânea
sob a Avenida São João e os dois viadutos em suas
extremidades. A maioria das pessoas não sabe por que o
Vale do Anhangabaú tem esse nome, nem o motivo de seu
principal viaduto ter a denominação de Viaduto
do Chá. Anhangabaú é um nome indígena
que denomina um córrego afluente do rio Tamanduateí,
que foi canalizado nos primeiros anos do século 20. Mesmo
canalizado, ficou muito tempo sem urbanização,
seu ajardinamento só foi realizado em 1910-1911, num projeto
de Victor da Silva Freire, aprovado pelo prefeito Antônio
Prado.
Muito antes da canalização, um viaduto
foi planejado em 1877 e inaugurado quinze anos depois, em 6 de
novembro de 1892, ligando o centro tradicional, a cidade velha
de São Paulo, onde existia a Igreja da Sé, o Pátio
do Colégio, o Mosteiro de São Bento e um comércio
variado, com o outro lado do vale, a chamada cidade nova, onde
as casas eram mais esparsas e ainda existiam várias chácaras.
A transposição do vale levou o nome de Viaduto
do Chá por causa da existência, em ambas as margens
do córrego Anhangabaú, que passa embaixo, de diversas
chácaras com plantações de chá, a
mais famosa delas pertencente à Baroneza de Tatuí.
Esse antigo viaduto foi idealizado pelo francês
Jules Martin. Tinha 14 metros de largura e 240 metros de comprimento,
dos quais, 180 em estrutura metálica fabricada na Alemanha.
Durante cinco anos após inugurado, a passagem de pedestres
era paga. Em 1938, durante o governo do prefeito Fábio
Prado, foi construído um novo viaduto, pois o antio não
suportava mais o intenso movimento. O arquiteto Eliziário
Bahiana projetou-o em estilo art déco, com estrutura de
concreto arrematada por gradil metálico. É mais
largo que o anterior (tem 25 metros de largura), mas com menos
da metade do comprimento, possuindo 101 metros.
Sobre o vale,
há outro viaduto, também importante ligação
das duas partes da cidade. Trata-se do Viaduto Santa Ifigênia,
construído com 1.100 toneladas de ferro fundido, importado
da Bélgica, e que até hoje mantém sua imponência.
Foi inaugurado em 1913, na gestão do prefeito Raymundo
Duprat.
Na primeira gestão
do prefeito Prestes Maia (1938-1945), o Vale do Anhangabaú
foi totalmente remodelado, sendo demolidos vários prédios
visando sua ampliação. No início, as pistas
para os veículos eram em número reduzido. A maior
parte do espaço era ocupada por jardins, palmeiras imperiais
e canteiros de flores. Com o passar dos anos, os veículos
foram tomando o lugar dos jardins e as pistas de rolamento foram
constantemente ampliadas.
O vale sempre
foi um importante elo de ligação norte-sul, ligando
a Avenida Tiradentes às Avenidas 23 de maio e 09 de julho,
além de ser seccionado pela importante Avenida São
João.
E é nos cartões-postais que podemos
visualizar todas essas épocas vividas pelo Vale. Inicialmente,
os amplos jardins em frente ao Teatro Municipal (hoje bastante
reduzidos, mas ainda belos). Depois, o amplo estacionamento no
meio da avenida e os edifícios que não mais existem,
como os três pertencentes ao Conde Prates, próximos
à Praça do Patriarca. Com o passar dos anos, observamos
nos postais o tráfego mais intenso e a sua configuração
atual, voltando a ser ajardinado na parte superior e o trânsito
fluindo veloz em seu subterrâneo. O rio, com quase cem
anos de canalização, continua a correr no subsolo.
Reafirmando o
que comentei no início, uma coleção de postais
é uma verdadeira aula de arquitetura e urbanismo, porque
acompanha o crescimento de uma cidade en todos os seus aspectos.
Numa metrópole como São Paulo, com mais de 10 milhões
de habitantes, muitas avenidas brotam da noite para o dia, sobre
leitos de córregos canalizados, ou ruas são alargadas,
praças são destruídas em nome do progresso,
como a construção de estações do
metrô, novas avenidas, noas ruas, num processo sem fim.
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